Engraçado, as luzes morrendo lentamente no horizonte me pareciam mais claras ontem. Numa discrepância um tanto irônica, meu sorriso que foi teu desaparece por tua causa. Ao vindicar o que outrora tu me ofereceste, descubro-me tão distante, num lugar perdido entre as tempestades silenciosas e a alvorada ainda a se demorar por medo de não resistir a escuridão. As chamas do meu coração hoje parecem consumir o que há de santo em meu espírito, fazendo-me pagar com sangue pela sensatez de ser quem eu sou. Sendo aquele cavaleiro vagante um ponto perdido entre o passado e o presente, pergunto-me se me resta a armadura vazia ou a espada cega para lutar uma guerra já sem sentido. Será que você pode ouvir essa nota desarmônica do piano a tocar serenamente ao fundo do salão já vazio do tempo? Sua melodia combina com minha inconsistência, pois ao te negar, foi quando eu mais te quis e sabendo do que tinha a oferecer, deixei para trás meus sonhos por medo de destruí-los com minha incapacidade de ser alguém melhor por ti e por mim.
Eu deveria ser um escritor melhor, não deveria? Tua admiração que sempre foi meu guia nas noites inacabáveis então deverá ser, mais uma vez, fonte de inspiração numa maré fraca onde a lua parece não mais se interessar pelo plano terreno. Deixe-me tentar mais uma vez então, sabendo que talvez não seja mais estas as palavras as quais teu coração espera ouvir para aquecê-lo nas noites frias de inverno. Esta história começa assim, no meio de um parágrafo, como o andar dos anos não esperam por um novo capítulo para te relembrar das brisas gélidas do inverno ou das brumas do verão, pois “numa noite chuvosa de julho, palavras pareciam bater contra as grades da prisão, ordenando serem libertas da injustiça de mantê-las cativas”, começou essa história, com um leve sabor de sarcasmo da vida no ar, onde a história de um escritor começa sem começo, se desenvolve sem sentido e não encontra conclusão nos anos a seguir.
“Era tarde demais quando chamei teu nome ou, em meus sonhos, você estava radiante em meus braços”, seguiu a história. “Moça de olhar sedutor, tua aparência adorável e inocente de outrora cativou em mim um sentimento puro de admiração e de respeito, onde você mudou com os ares de cada outono, sendo mais forte, destemida e transformando meu sentimento por ti, porém sem saber que o mesmo só fazia crescer a cada esquina que te observava dobrar a tua vontade”, contou o escritor nas notas de rodapé, esquecidas por muitos, ignoradas por aqueles quais que não desejam aprofundar-se em sentimentos, apenas em palavras. “Eu era um soldado lutando uma guerra solitária. O castelo que te guardava parecia-me cada vez mais distante a cada golpe aparado e o cansar dos meus músculos faziam-me sucumbir lentamente. Com uma adaga entre as minhas costelas, o golpe de misericórdia nunca veio. No chão enlameado, com um piano a tocar notas desarmônicas, seria este o fim ou apenas o começo?”, concluiu.
Data original de escrita: Jun. 2016.
Data original de escrita: Jun. 2016.
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