Stadt von Gött, em algum momento da década de 1440.
Eu estava sentado à praça observando as
pessoas passarem desatentas ao meu redor. Ao longe, correndo ao redor do tronco
de uma árvore, protegido por sua folhagem, estava um garoto de mais ou menos
cinco anos brincando com seu animalzinho de estimação. As pessoas parecem ter
esquecido o terror que deixamos pra trás na Terra-Mãe, todos tentando viver
suas vidas da melhor forma possível. O garoto está entre a quarta ou quinta
geração nascida e criada aqui. Stadt von Gött nasceu como um farol de
esperanças para os desabrigados e desafortunados. A cidade tomou proporções
magnificas em pouquíssimo tempo, como se as pessoas urgissem pela paz trazida
por novos horizontes. Nós chegamos como conquistadores, eu sei, eu estava lá
nas linhas de frente lutando por um espaço. Os símios que habitavam esse
continente não estavam preparados para o que estava pra vir, estava mais do que
evidente a nossa necessidade de impor ordem e impulsioná-los na direção do
progresso a fim de termos mais chances de vencer aquilo que sozinho não tivemos
forças para combater. Todavia, as décadas se passaram, nosso povo se acomodou
com a nova moradia encontrada e cresceu tenro, suave demais para os perigos que
nos aguardam. Nós passamos a novamente nos preocupar demais com problemas
pequenos como bem-estar social e a criar relações com os inferiores que habitam
esse pequeno pedaço de terra o qual chamam de Continente. Patético, mas chegando
ao final da minha caminhada, eu entendo nossa súplica por paz e estabilidade.
Afinal, nós viemos para cá com apenas esperanças e apenas esperança nos resta.
Ela se modificou, cresceu nas gerações seguintes a minha de maneira diferente e
passaram a almejar diferentes coisas, porém nunca deixou de existir.
O garoto abraçou seu kiwi
finalmente, deixando escapar um enorme sorriso de satisfação. Incapaz de evitar,
lágrimas rolaram pelos meus olhos. Foi por isso que eu lutei por tantos anos,
foi por isso que realizei tantos testes secretos em virtude de desenvolver a
arma perfeita para combater não somente os perigos escondidos nas Terra-Mãe,
mas para enfrentar os escondidos nesse Mundo Novo. Pelo sacrifício de uns, esse
garoto podia crescer despreocupado, poderia pensar em fazer a cidade um local
melhor para seus iguais, sem se preocupar com o que repousa além das fábricas.
Nós cometemos muitos erros, eu sei, e eu peço piedade a história, clemencia
para ser esquecido se possível. São tempos difíceis, nós fazemos coisas
horríveis, contudo necessárias. Stadt von Gött esconde em suas sombras segredos
que congelariam a alma do mais destemido dos soldados. O garoto então caiu ao
correr e começou a chorar, disparando uma reação imediata do seus pais, que
foram em seu auxílio. Nós temos coisas preciosas demais para proteger. Nós
temos segredos para os homens e mulheres possam sorrir sem temerem pelo amanhã.
O que são alguns milhares em comparação aos milhões que protegemos? O que são
sacrifícios se comparados aos sorrisos dos nossos iguais? Diga-me você se eu
estou errado ao fazer essas escolhas.
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