Desencontro


            Era crepúsculo numa pequena vila do interior do reinado de Casterra, um cansado aventureiro caminhava lentamente, encapuzado, em direção a taverna local. Caia uma chuva fina, quase se misturando com a névoa crepuscular que ali formava-se diariamente, com seu gotejar marcando o bater do coração dos homens e mulheres que lá moravam. O viajante carregava em seu cinto uma bainha adornada e bem trabalhada, com envoltos de ferro na entrada da lâmina e onde a mesma tocaria com sua ponta, tal como, pendurada por um barbante negro, estava o símbolo de sua ordem, a cabeça de um corvo com os olhos voltados para o céu. O homem não deveria ter mais de trinta anos, porém sua longa barba castanha fazia-o passar por mais velho e também era um sinal que estava na estrada a bastante tempo, mais do que deveria. Seus olhos acizentados brilhavam por debaixo do capuz que sombreava seu rosto, um olhar firme, porém passava a todos que os fintassem um ar tenebroso de medo. Estava desarmado, por alguma razão, o que não era comum naquela região tomada pela guerra, peste e os abutres que rondavam as desgraças alheias, como bandidos e outros mais. Por fim, suas roupas simples não condiziam com sua bainha, nem sequer trajava uma armadura, e o tecido rasgado de seu blusão por debaixo de um colete de couro demonstrava que havia conhecido batalhas pelo caminho até aquele lugar.
            Num ranger longo e incômodo, a porta da taverna se abriu e nela adentrou o viajante. Ao sentar-se numa mesa vazia próxima a lareira, encostou seus cotovelos a mesa, removeu o capuz deixando à mostra seu longo cabelo de mesma cor que sua barba e com as mãos apoiou a cabeça. O taverneiro sussurou algo para sua filha que trabalhava como garçonete no local e logo a mesma se prontificou a atender o rapaz. Estavam acostumados a receber os mais diversos tipos de viajantes, visto que apesar de pequena, a vila estava a poucos quilômetros da principal estrada comercial da região. Haviam cerca de vinte pessoas no salão principal, talvez mais quatro ou seis na mesa reservada a jogos de azar no fundo, como pode observar o misterioso aventureiro. Logo a filha do taverneiro o abordou, com uma voz suave e gentil perguntou-lhe:

- Deseja beber ou comer alguma coisa, senhor?

- Água, por favor – respondeu, com a voz falha, o homem.

            Prontamente, a moça deu-lhe as costas e seguiu para a cozinha. O silêncio ainda que impossível de se imaginar naquele ambiente o atingiu. Perdeu-se em pensamentos observando a chuva se intensificar, com o olhar fixo para além da janela do local. Do outro lado da rua, uma criança abrigava-se da então repentina tempestade debaixo de uma árvore no centro da praça. A guerra havia deixado diversos órfãos ao longo do reino e poucos pareciam importar-se, quiçá notá-las. Aquela vila não deveria ter mais do que mil habitantes, porém nomes e famílias parecem esconder-se nas sombras do pesadelo de serem os próximos a perderem seus entes queridos.

- O senhor deseja mais alguma coisa? – voltou a repetir a filha do taverneiro, num tom mais elevado ao perceber a distância em pensamento do homem.

            O aventureiro virou seu rosto a ponto de seus olhos encontrassem os da moça e com um sorriso tímido, fraco, respondeu-lhe:

- Esperança.


de 03 de dezembro de 2014.

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