Deixe-me falar um pouco sobre fé, por favor. A porta está trancada esta noite, como todas as outras, porém, em silêncio, eu repouso minha cabeça em desolação esperando uma resposta tua. Eu arrasto minhas mãos tímidas ensanguentadas enquanto, aos sussuros, entrego teu nome ao vento, numa esperança vã de chegar até você. Todavia, minha querida, não existe razão para harmonia aqui, nem tampouco aquele tom jocoso de misericórdia. Não, aos tolos covardes o bastante para nunca baterem a porta, cabe apenas o calar eterno do esquecimento. Eu acredito que você não saiba, talvez nem sequer se importe, mas eu não costumo falar de fé, especialmente para aqueles perdidos como eu por entre os caminhos inconscistentes da vida. Eu não tenho nada além de palavras para te oferecer, nunca tive e é bastante provável que isto seja tudo de mim para o mundo, porém é em sincero desapego que ofereço tudo o que me restou para, se possível, colocar um sorriso bobo no teu rosto tão manchado de cicatrizes injustas.
            O que é a beleza, minha querida, senão a frágil disposição do sereno navegando em desespero pelas águas das nossas lágrimas? A felicidade nada mais é do que o apego angustiante à todas as nossas espectativas. A crueldade de querer, muitas vezes, nos cega daquilo que pode nos trazer paz e conforto. Para cada estrada pavimentada de ouro, os bêbados caminham desatentamente procurando o arco-íris no final da jornada sem admirar a graça dos palhaços à tentarem ser mais do que um sorriso falso. E você grita para aqueles que se esforçam o suficiente para te ouvir: “Devolvam-me minha inocência, pois eu desejo sonhar novamente!”. Eu acredito nunca ter crescido o bastante para abandonar meu playground e quando o crepúsculo toca o horizonte, é o teu sorriso que gostaria de ver iluminar meus passos infantis num mundo violento o suficiente para anoitecer. Quando as cantigas não bastarem mais para te fazer adormecer, eu gostaria de poder te dar minhas asas quebradas para te levar para um lugar longe de todos os teus pesadelos.
            Sim, eu tenho consciência de estar falando sozinho, não preciso fantasiar tolamente sobre meus devaneios absurdos do pouco que me sobrou te alcançar. Eu barganhei com meu destino, o dobrei e o fiz meu, devendo ao diabo o preço da minha fé. Dosando com calma algumas poucas mentiras para aliviar a dor, eu ainda escuto a tristeza chamar meu nome. Opaco como as chamas dentro dos teus olhos, eu lanço mais um sorriso falso despretencioso. Ah, a minha armadura quebrada, tão patética, está jogada em um canto qualquer do meu quarto, enquanto eu finjo mais uma vez este papel ridículo de herói imbatível. É apenas um jogo. É apenas um jogo onde evito passos em falso. É apenas um jogo onde eu já não me importo com meus fracassos. É apenas um jogo que me destrói toda vez que eu te vejo perder. É apenas mais um tiro no escuro, apenas mais um golpe cego em direção ao vazio.
            Eu comecei mais um sarcasmo e já não sei se ele me envolve ou se é sobre mim. “Se a via crucis virou circo, eu estou aqui”.

Data original de escrita: Set. 2015.

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