Os miseráveis
Escrevo
este pequeno excerto de Stadt von Gött, a cidade do inferno (nós amamos a
ironia, sim), como todas as demais de um mundo deturpado e largado a própria
sorte, no ano de 4716 e no calendário mais usado pelos locais, 1386. Existem
sirenes distantes perturbando o silêncio, irrompendo-o violentamente como
vísceras rasgadas do abdômen de um miserável ainda vivo. As ruas receberam o
milagre da iluminação a gás, uma engenhosidade subterrânea misturando magia,
tecnologia e todo tipo de merda que as grandes industrias vendem como o futuro
para nós desgraçados presos ao passado. Não existe um dia dolente em Stadt von
Gött sem um punhado de chuva, neblina com um pouco de sorte, o típico buraco de
merda para vagabundos chafurdarem na lama de suas vidas, gritando em silêncio a
liberdade de escolher entre as ilusões dispostas de si. “Um” é livre para ser
um escravo numa indústria metalúrgica, grande orgulho patriótico. Este trabalha
para um bem maior, a estupenda, magnífica, invencível, indestrutível e... eu
esqueci os demais adjetivos idiotas da força naval dos que se chama de
shadar-kais. Os renegados por Kai. Nós nos orgulhamos deste desprezo.
Os orelhas-redondas nos chamam de metahumanos, nós
retribuímos o favor com nossos próprios jargões preconceituosos para todas as
demais raças. Os selvagens dos arquipélagos do note, orcae, mais os
disciplinados guerreiros de todas as raças e etnias distribuídas por esta terra
em decadência, mas parecem repudiar os avanços científicos como abominações a
depredar os velhos costumes. “Os pilares do mundo estão diante de nós, nós
somos seus guardiões”. Blá blá blá, pegue seus dois metros de musculatura
possante contra minha besta de repetição e regue sua terra sagrada com
sangue.
Mais ao
sul, estão os que se chamam de humanos, alguma variação de nossa palavra hominidae,
eu acredito. São como coelhos, uma verdadeira chaga neste mundo. Se reproduzem
com uma facilidade inacreditável. Dentro de tudo os que nos une a um único
tronco biológico de espécies, acho que eles são os que estão mais próximos de
suas emoções. São passionais, arrogantes, ambiciosos, porém tão fáceis de
manipular como tábulas rasas.
Mudando
de direção um tanto, no que restou do Leste do Staat der Weißes Land,
nós temos uma espécie de transição, talvez, são muito mais descritíveis pela
sua peculiar crença e religião. Eles são descendentes de elfos e humanos que a
muito se miscigenaram. O mais próximo de descrevê-los seriam o corpo delgado
semelhante aos élficos, porém com uma musculatura muito mais evidente e
definida e tons de pele escuras, indo de um marrom bronzeado até um negro
próximo de obsidiana. Com longos e finos narizes, seus olhos costumam ser
pequenos e apertados, mas diferente dos orientais. Diferente de seus
antepassados elfos, a mistura com a raça humana os proporcionou barbas cheias,
talvez mais cheias até do que os humanos ditos puros. Por causa da sua religião
monoteísta e extremamente fechada, eles chamam os homens de Ahura,
senhor ou poderoso, enquanto as matriarcas são chamadas de Mazda,
sabedoria em tradução livre. Eles vivem sob um governo matriarcal e uma
sociedade patriarcal, contraditória por natureza, mas aparenta funcionar.
Em
contato com os residentes do grande deserto conhecido como Mar de Fogo, estão
os isolados elfos da Cidade do Sonhar. Sim, eles residem em apenas uma
ostentuosa e quase divina megalópole tecnomagica no meio da Floresta de Muitos
Nomes. Usualmente, os residentes a chamam de Coração da Mãe Natureza. Outras
raças, mais ligadas à ciência não ao misticismo, a costumam chamar recentemente
de A Grande Barreira, em alusão aos conflitos envolvendo os shadar-kais do sul
após a quebra do pacto de não-agressão, vigente no período do Dragão do Norte.
Em questão física, os elfos não estão muito diferentes dos shadar-kais invasores,
provavelmente estão mais próximos dos mesmos na cadeia evolutiva. São, porém,
mais altos, sua aptidão física é limitada e seus corpos tendem, se não cedidos
as opulências da elite élfica, porém suas ligações com a natureza os tornam
exímios guerreiros corpo-a-corpo, com velocidades sobrehumanas. Estes
guerreiros élficos, temidos em todo Mundo Novo e aclamados para se tornarem
caçadores de monstros, são monges e druidas, onde o primeiro usa a energia
natural (balanço entre o arcano e o divino) presente no mundo em seu próprio
corpo, chamando-o de chakra e tornam-se assim armas vivas, sem necessidade de
ferro, aço ou qualquer forma de equipamento. Já os druidas não internalizam
suas energias, mas agem livremente através da percepção da mesma, sendo quase impossível
pegá-los de surpresa. Alguns estão em uma sintonia tão perfeita que seus corpos
humanos perdem o sentido, muitos lutam incorporando criaturas das florestas.
Fim do relatório de campo.
Ehre sei dem Neue Staat der Hoffnung,
Oberst Wihelm Reinstarek
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