Eu tenho uma confissão a fazer.
Talvez não seja muito dizer, talvez para muitos soe ultrajante revelar. A
verdade é que eu não entendo muito como consigo me encarar no espelho, as
marcas de um pecador em minha pele me castigam por erros os quais não escolhi
cometer. É, eu tenho uma confissão a fazer, tenho um pecado mortal a comunicar.
Eu tenho tentado ao longo dos tempos conviver com isto, tento procurar nos
outros um conforto de saber que não sou o único a carregar este fardo, mas cada
dia mais encontro-me mais sozinho com este peso em minhas costas. Como uma
rebelião de privilegiados, eu levanto os braços para as armas jamais apontadas
para minha cabeça. Como um deus invejoso, eu conjuro maldições ao criador deste
pecado capital. Como um homem frágil, é a minha consciência, no espelho, a me
julgar, fingindo estar tudo bem e que eu deveria continuar.
É, eu preciso confessar um crime.
Talvez não pareça inconstitucional a priori, mas somente os deuses presos em
igrejas sabem julgar o quão hediondo é. Não há perdão para tal ato vil, não há
solução senão sucumbir as fibras a me sufocar, bombeando culpa pelas minhas
artérias, dificultando minha respiração e engenhando com minha mente a minha
punição. Como uma busca incessante para a fonte da juventude, este crime
somente é o fim em si mesmo, retroalimentando-se. Como um circo de ferrugens, é
uma infração há muito esquecida, andando estonteada pelos cantos, criminalizada
pela força bruta de quem comanda. Como se alimentasse a chuva tempestuosa, tão
impetuosa, a cair pelos céus sem pedir permissão para existir, ousando desafiar
a vontade de quem vive, de quem manda, de quem assobia desapercebido pelo
mundo. Como se beijado pelo luar, ele é a cripta de quem sonha e, tocado pelo sol,
é o calor entorpecente de quem segue.
Sim, eu preciso me render. Talvez
pareça tolo assim fazê-lo, mas por outros meios já não encontro razões para
tirar isto de mim. De verde-e-amarelo, me parece um absurdo ser capaz de
sentenciar, seria incapaz até de proferir tamanha ofensa a bandeira. Todavia,
vermelha como a rosa a ser admirada, também é o sangue em minhas mãos, também é
meus olhos marejados a me inquietar. Eu me coloco a mercê de quem teve estômago
de aqui chegar, de todas essas palavras ler e ainda seguir numa curiosidade
mórbida de lamber a ferida de um criminoso. Entrego-me a punição onde moro, eu
pago o pato por tamanha desavença com a vontade e soberania nacional. Sim, eu
admito culpa de amar. Eu admito ser capaz de tamanha atrocidade. Eu admito
incapacidade de controlar meu coração. Eu peço perdão ao mundo, mas a minha
prisão, esta sim com provas, já foi decretada pela minha falta de juízo.
Desculpem-me todos que puderem, mas sim, eu sou capaz de amar novamente.
de 26 de abril de 2018.
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